quarta-feira, 28 de março de 2018

AS PORTAS

A nossa mente é como uma porta, e pode estar fechada ou aberta. E quando ela está fechada nada muda, tudo continua sempre igual.
A nossa realidade é conviver com a violência e achar que é normal; são gangues que atacam gangues; policiais que morrem na troca de tiros; criminosos que morrem na disputa dos pontos de drogas; educadores que são enquadrados como bandidos e infinitos assassinatos; ativistas morrem como ratos ― recorrente desde Chico Mendes ― e eu pergunto: quem é a vítima? Contrabandistas, advogados, sacoleiros, juízes, ambulantes; todos estes são criminosos ou sobreviventes? São bandidos do colarinho branco ou de colarinho encardido? São culpados? São inocentes? Quem é o quê e quem é quem em meio a tudo isso?
O fato é que: argumentos, por mais acertados que sejam, ricocheteiam ou deslizam por sobre o tumor maligno da ignorância, pois os politizados ou policiados, de pai para filho, desde a hora em que nascem, são condicionados a acreditar que não há outra forma de pensar. São formados antes mesmo de irem para as escolas, com base na realidade cristalizada de seus antepassados. 

Claro que tudo isso tem um objetivo; imobilizar as massas. E todas as vezes que alguém consegue direcionar o povo aos fatos que o oprimem, que o massacram, isso provoca incômodos que precisam ser abafados; e como desprezíveis baratas são eliminados. Pois nenhum argumento pode ser contra um coquetel de ideias prontas.

Desmoralizar a vítima e desculpar o culpado. Torcer a história e confundir o povo.  Isso é fato! O povo sempre é enganado. E o povo enganado é capaz de condenar a ele mesmo. Essa sempre foi a estratégia usada nessa batalha: confundir, enganar e continuar a jogar; pois eles continuam ganhando. 

Assim acontece com a maioria das pessoas que não estão dispostas a reverem as próprias certezas; pois quando o nosso espaço mental já está ocupado e cristalizado, não entra mais nada. E por mais argumentos que se tenha, por mais fatos que se mostre, nunca conseguirá trocar ideias com quem não está disposto a ouvir, nunca conseguirá ultrapassar a porta, porque os argumentos de um ser, totalmente doutrinado, não passam de uma porta fechada. Abra essa porta!

sexta-feira, 23 de março de 2018

PARA MARIA E JOÃO

Quem já leu a crônica Para Maria da Graça, de Paulo Mendes Campos? Ou o romance Adultério, de Paulo Coelho? Ou quem sabe, o romance A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector?  Esses são alguns textos que estimulam o raciocínio e a reflexão; pena que hoje em dia as pessoas não gostem de ler, nem de aprender e muito menos de refletir. A maioria prefere comprar ideias prontas, já mastigadas, elaboradas para serem digeridas e nunca degustadas; pois elas têm preguiça até de pensar. 
Outro dia eu li uma frase interessante: “A escola finge ensinar e as pessoas fingem aprender.” E isso é uma grande verdade, infelizmente! E não faz muito tempo, eu comentava exatamente isso com um amigo. Por que as pessoas já não se esforçam para aprender? Por quê? Bem, chegamos a uma conclusão: porque não precisam. Ninguém precisa aprender mais nada, pois elas já nascem com a fonte de todo saber na palma das mãos. Então para que aprender, não é mesmo? 
Já não se vê pais preocupados em ensinar a seus filhos o que eles aprenderam com seus ancestrais ― o conhecimento e a cultura estão se perdendo ―, porque hoje tudo que se quer saber encontra-se na internet, basta se conectar.
Muitos dizem que isso é evolução, que a tecnologia veio para facilitar, informar com muito mais rapidez. E que as crianças estão mais espertas, mais inteligentes com essa nova perspectiva de aprendizado a que estão expostas desde o momento em que nascem. Será?
Sabem o que eu acho? Que estamos nos tornando vítimas de nossa inércia, de nossa ignorância e de nosso acomodamento. Pois temos em nossas mãos acesso ao conhecimento através de um toque. E nunca a humanidade teve tanta facilidade para aprender, porém, incapacitados para compreender. Pois, de nada adianta ter ao nosso alcance todo o conhecimento do mundo ou do universo, se não abrimos nossas mentes para absorvê-lo. E isso seria possível se estimulássemos os nossos neurônios, com uma boa leitura ― por exemplo ― o que aumentaria, consideravelmente, a nossa capacidade de absorver. Mas ao invés disso, perdemos tempo acessado inutilidades que não nos acrescentam nada; muito pelo contrário; muitas pessoas já não são capazes de analisar ou dar soluções para as coisas mais simples sem consultar o pai Google. Imaginem as mais intricadas! Então, o que estamos nos tornando? Escravos da tecnologia? 
Exatamente! A diferença é que antigamente, os escravos tinham seus membros atrelados a grilhões e seus corpos eram açoitados com chicotes, até que obedecessem aos seus feitores ou aos seus senhores. Atualmente, os escravos são atrelados às máquinas e suas mentes são açoitadas constantemente com futilidades, até que se tornem impotentes, frágeis e fáceis de manipular. 
Por isso, caro leitor, que eu digo: abra seus olhos e não encha sua mente com inutilidades, pois elas só servem para ocupar o seu HD com lixo, e deixá-lo mais lento. Seja antenado, mas acrescente aos seus arquivos, dados úteis; fatos; conhecimentos. Leia mais, é uma das maneiras mais divertidas para aprender; não doí e ajuda a refletir. E isso, caro leitor, é para que não venham a se tornar mais uma ‘Maria vai com as outras’ ou um ‘João ninguém’.

Jussara Pires

domingo, 18 de março de 2018

CARA-METADE




Desde que o mundo é mundo, vivemos à procura de uma cara-metade para nos completar. Outro dia, ao ver uma laranja cortada ao meio, refleti a esse respeito.

Você já tentou unir dois lados de uma mesma laranja? Pois bem, eu tentei, mas por mais que eu tentasse unir as duas metades, elas não se uniam mais. Então cheguei à conclusão de que, se duas metades, pertencentes a uma mesma laranja, não se unem depois de separadas, como podemos esperar que duas metades, que nunca foram uma só, venham a se completar?

A grande verdade é que não precisamos procurar a nossa metade ou criar expectativa de que alguém venha a nos completar, ou dizer o que faremos de nós mesmos, porque já nascemos inteiros. O que precisamos é nos descobrir, saber quem somos e o que queremos, precisamos existir e não coexistir; precisamos ser concretos e não a sombra ou o reflexo de outra pessoa.

Portanto, antes de se relacionar com alguém ― seja com companheiro, filho, pai, amigo ou irmão ― encontre a si mesmo. Porque pessoas pela metade, tendem a ser como parasitas que sugam, drenam e deixam para trás apenas cascas vazias. Acredito que não devemos ver um relacionamento como sendo uma tábua de salvação, uma muleta e tampouco, como uma desculpa forçada para justificar a nossa escravidão.

Afinal de contas, do fundo de minha alma, entendo que, se é que somos como as laranjas, somos inteiros sempre, mesmo depois de cortados, pois uma laranja, não perde a sua essência, jamais.

Seja íntegro, seja inteiro.

Seja como uma laranja.



Jussara Pires