quinta-feira, 24 de março de 2016

OS ORELHUDOS


“Olha, pai, um coelhinho...”

Muito normal nessa época do ano a comercialização desses lindos bichinhos. Eu também amo coelhinhos. Mas coelhos não são brinquedos.

A Páscoa deixou de ter o objetivo religioso. Passou a ser uma fonte comercial. Uma das mais gananciosas fontes de fazer dinheiro. E o motivo não é só a falta da crença dos vendedores ou dos compradores, mas sim, uma questão de status. Pois dar Ovos de Páscoa, cada vez mais caros, passou a ser uma questão de quem tem ou não ‘bala na agulha’.

E em meio a essa falta de objetividade, cresce também o comércio irresponsável dos coelhos. E, de símbolo da fertilidade e prosperidade, o coelho passou a ser um presente com fins lucrativos.

Mas dar coelhinhos às crianças é no mínimo uma falta de sensibilidade. Pois, além delas não receberem a lição religiosa, que tem a tradição da Páscoa, também não são ensinadas a respeitar a vida. E são de pequenos gestos como esses que educamos ou não os filhos.

Algumas crianças esperam que os pequenos animais ajam como se fossem cães ou gatos. Impossível! Ou, por outro lado, elas os carregam pelas orelhas, como se as longas orelhas dos coelhos fossem feitas exatamente para isso. Pobres bichinhos!

Os orelhudos não são criaturas de ficar em colos. São frágeis e precisam de muito cuidado. Não tomam banho... Nunca! Mas precisam de água limpa  para beber, de uma dieta balanceada e de um lugar asseado para viver. Sem falar, que eles dormem durante o dia e são ativos só durante à noite. Além disso, os coelhos usam as unhas afiadas e os longos dentes para se defenderem. Estes, são alguns motivos pelos quais, não se deve dar coelhos para uma criança.

E quando uma criança, passa a entender que coelhos não põe ovos de chocolate, os tais ‘Ovos da Páscoa’, Aí, então, o encanto acaba. Ela perde o interesse pelo bichinho na mesma rapidez que o amava. E, com certeza, depois do momento de euforia, os coelhos se tornam um incomodo. Tanto para as crianças como para seus pais. Pois, a urina dos coelhos fede e mancha; e suas fezes, que não são ‘bolinhas de chocolate’, se espalham por todos os lugares. E acabam esquecidos em uma gaiola. Muitas vezes, sem água ou comida. Quando não, são soltos na mata, como se essa fosse a melhor saída. Antes fosse!

Animais criados em cativeiro não conseguem sobreviver sozinhos, muito menos na mata. Pois não sabem o que comer, não sabem como se esconder e nem sabem como se defender dos predadores. São presas fáceis e a morte é certa.

Melhor mesmo, seria que comprassem coelhos de chocolate ou de pelúcia para darem a seus filhos. Pois, depois da Páscoa, podem ser jogados em um canto qualquer, entre outros tantos brinquedos que eles já não utilizam mais.



Jussara Pires






quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

E SE FOSSE VOCÊ A MÃE?


Engraçado como as notícias passam desapercebidas. E como os valores mudam, a depender de quem esteja na mira da mídia. Porque até para ser vítima é preciso estar dentro de um padrão, dentro de um contexto.   

Confuso? Não, não é não.

Em uma sociedade em que as leis têm dois pesos, ou “enes” pesos, isso pode ser bem normal. Aí, vai depender do caso. Se a vítima tem cara de vítima ou se o acusado tem cara de acusado. Por isso, existem buracos nas leis. Alternativas para modificar um veredito.

No caso da criança degolada, se o acusado fosse um índio e se a criança fosse um “não índio”, o acusado não teria nem direito a ser julgado. Pois o passado o condenaria. E eu não estou falando de um passado de crimes, mas sim, de sua origem.  

Você acha que não? Então me diga, por que não fizeram manifestações para repudiar o ocorrido? Meu Deus! Uma criança foi degolada!  Quem somos nós? Selvagens?

Os índios continuam sofrendo a ação dos invasores, continuam sendo massacrados pela ganância, continuam desprezados pela ignorância e continuam morrendo em uma guerra fria.

Deveríamos parar de agir como escravos de conceitos velhos e manipuladores. Quantos Vitor mais precisam morrer para que enxerguemos isso?

E se a criança degolada fosse o seu filho. E se ela estivesse em seu colo na hora em que fosse assassinada? Como você se sentiria, hein, mãe?

Eu nem peço para que seja feita a justiça. Porque teriam que degolar muitas crianças, muitos corpos teriam que ser queimados e muito sangue teria que ser derramado. Para compensar cada índio que foi morto injustamente.

Os índios não são nossos inimigos. Eles têm todo o direito de estar aqui: na mata, na cidade ou em qualquer lugar que eles queiram. Porque eles são os verdadeiros donos dessa terra. Alguma dúvida disso? Eles não são só os donos do lugar em que vivemos, mas também do alimento que comemos, da água que bebemos, da mata que destruímos...  

Nós somos os responsáveis pela morte do pequeno Vitor e de outros tantos que morreram antes dele. A morte desta criança foi uma covardia, um absurdo, uma vergonha...  E dizer o quanto fico triste sobre tudo isso, é pouco.

O pequeno Vitor infelizmente se foi. Mas existem outros que ainda podem ser salvos.


Não se omita. Levante sua voz!



Jussara Pires