Ando consternada ao descaso que fazem
às pessoas de baixo poder aquisitivo. Sejam os políticos quais forem: presidente,
procuradores, vereadores, magistrados, deputados e outros tantos “ados”. Que
tratam as pessoas pobres como escoria da nossa sociedade.
E não somente as autoridades que por nós foram empossados, como a maioria dos nossos considerados “cidadãos de respeito”: tão bem-educados, politizados e tementes a Deus; mas só da boca pra fora.
Admiro-me que essa gente venha expor sua indignação ao ver a corrupção declarada abertamente, como se isso fosse alguma novidade em nosso país; e que só agora tomássemos conhecimento disso: dessa descaração desenfreada que sempre foi marca registrada em nossa política. É até para se achar graça! E por mais que agitem-se e mobilizem-se de nada adiantará. Pois trocar políticos corruptos por outros políticos corruptos só irá passar de mãos o poder de quem irá nos ferrar.
“Nos ferrar” é só um modo de dizer, porque como bem sabemos, só quem se ferra mesmo é o miserável, aqueles que passam de biscates ou das sobras que por sorte possam encontrar. Esses sim, sempre se ferram. Os outros, os que conseguem ganhar algum dinheiro por conta de sua colocação profissional, porque teve um bom estudo ou foi agraciado por ter “costas largas”, sempre conseguem dar um “jeitinho” ou outro para se beneficiar da lama da corrupção, que se espalha por entre os dedos da maioria que se considera “bom cidadão”.
E ainda se dizem temente a Deus. De que Deus?
E os poucos de nós que alegam não cometer o “crime” da corrupção, nada fazem para evitá-lo. Como por exemplo: a aprovação da “Ajuda custo a moradia”. Que absurdo! Um benefício para poucos, que já recebem um salário superfaturado ― que por sinal sai do bolso do próprio povo ― produto do suor da maioria que é obrigada a sobreviver com um salário de miséria. E esses beneficiados são os mesmos imorais que se julgam acima de qualquer suspeita ou acusações; que julgam, condenam e executam leis; comandam homens contra outros homens, manipulam opiniões; são os mesmos que se apossam do dinheiro, o qual deveria estar sendo usado para dar melhores condições ao povo; e são os mesmos que condenam esse mesmo povo, por cometer delitos, por não ter recursos para sobreviver.
E quem são os culpados dessa pouca vergonha?
Somos nós! Porque ao depararmos com tamanha imoralidade não fazemos nada para mudar. Como podemos ficar calados e de braços cruzados? É porque somos coniventes, criminosos, tanto quanto, ou até mais. Porque assistimos passivos o povo morrer: nas redes hospitalares por falta de profissionais, de equipamentos ou à espera de vagas para serem atendidos; vemos de braços cruzados aberrações sendo formadas dentro e fora das escolas, em vez de exigirmos reformas educacionais eficientes; porque aplaudimos em praça pública a quem nos rouba grandes somas e exigimos que encarcerem quem comete pequenos delitos cometidos muitas vezes por fome, miséria ou desespero.
E depois de passarem um período encarcerados saem de lá formados, dessas escolas de “monstros”, e nós sabemos que elas existem, mas fechamos os olhos por conveniência. Afinal de contas eles são ‘bandidos’. Então porque deveríamos nos importar com isso, não é mesmo?
Nós formamos “monstros” mais que qualquer outra profissão. Saturamos o mercado com esses ‘profissionais’ capacitados, instruídos por essas eficientes instituições educacionais para a reabilitação marginal. E de lá, eles saem doutorados! Depois são reintegrados ao convívio da nossa sociedade. É... Por mais que queiramos que eles sumam de nossas vidas um dia eles irão voltar, e voltam com ânsia para mostrar tudo o que eles aprenderam em seu ‘período educacional intensivo’.
Somos nós que aplaudimos quando um policial faz seu trabalho ― e é pra isso que eles são pagos, não é mesmo? ― que é levar cada vez mais ‘marginais’ para serem encarcerados, ao invés de estarmos evitando isso. Como? Investindo na educação.
Mas, na verdade, isso tudo não passa de uma maneira para nos ludibriar. Isso mesmo, nos ludibriar! Porque ao ficarmos ocupados com a marginalização crescente nos esquecermos de quem deveríamos realmente enjaular.
Abram os olhos! Somos nós que estamos atrás das grades há muito tempo. E com o crescente aumento de ‘criminosos’ logo seremos nós que estaremos do outro lado da lei. Então, o que nos restará? Clamar por Deus?
“Ele” deve estar sentado, comendo pipocas, só observando essa corja de hipócritas que só olha para seus umbigos. E deve estar esperando... Porque um dia, alguma coisa vai ter que acontecer para mudar. O caldeirão já está borbulhando e logo ele vai transbordar. E quando isso acontecer... Eu não quero estar aqui para ver.
Adivinha quem irá se queimar?

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